Tucídides e a eclosão da guerra


Texto original:
Thucydides on the outbreak of war. 
Por: Seth N. Jaffe
Tese de doutoramento pela University of Toronto (2012)

Tradução e adaptação: Equipe Mare Nostrum.

O projeto de Jaffe ilumina o pensamento político de Tucídides através de uma nova interpretação do primeiro livro da História da Guerra do Peloponeso. Ele explora como Tucídides revela as causas humanas da guerra através da deflagração de uma guerra particular, a guerra do Peloponeso.

A alegação principal é que Tucídides pretende a desagregação da Paz dos Trinta Anos entre Atenas e os Peloponeso, que inauguraria a grande guerra. Tucídides compreendia a eclosão da guerra através de personagens pertencentes aos regimes atenienses e espartanos que haviam contribuído para a eclosão da guerra e , crucialmente, como Atenas e Esparta diferente expressavam a natureza humana através disso.

Em linhas gerais, o primeiro livro da história revela como os personagens do regime de Atenas e Esparta informavam suas respectivas políticas externas, mas também como a interação entre as duas cidades - conhecidas pelas necessidades distintas prementes sobre eles -, faz com que o status quo helênico estremeça e venha a ruir. Ao longo do primeiro livro, embora nunca obscurecesse os eventos específicos que desencadearam a guerra, Tucídides progressivamente desenvolveu e expandiu sua ideia de que era o medo espartano do poder ateniense que obrigou o combate. O estudo de Jaffe afirma que a necessidade (ou coerção) é o fio brilhante que Tucídides usa para guiar seu leitor através dos episódios do primeiro livro, a partir das causas imediatas [políticas] da guerra do Peloponeso para as causas humanas da guerra, desde os eventos específicos para os temas universais em História.

Ele [Tucídides] traça novos caminhos através da vasta mata de conteúdo da obra em seus primeiros 146 capítulos, revelando como a eclosão da guerra do Peloponeso lança luz sobre as causas da guerra em geral e como estas por sua vez, explicam sua grande conflagração. A importância do primeiro livro de Tucídides tem sido reconhecida. É nele em que se apresenta a história e prepara-se o palco para a guerra. Por que então há a necessidade de um outro estudo sobre as origens da guerra? Tucídides mesmo não disse que foi o crescimento do poder ateniense inspirando o medo em Esparta, que fez guerra necessária (1.23.6)? Como algo poderia ser mais claro?

Devido a esta frase aparentemente simples, os estudiosos das relações internacionais têm reivindicado Tucídides como ele mesmo, o realista arquetípico, o primeiro defensor da política de poder, e um homem eminentemente interessado ​​na causalidade científica da guerra. Enquanto Tucídides certamente tem muito a dizer sobre o equilíbrio de poder e o início da guerra, sua famosa declaração não pode ser interpretada isoladamente, nem, na verdade, como algo cientifico em si mesmo, em qualquer sentido contemporâneo. Para começar, é necessário envolver o primeiro livro da História como suplemento que mire àqueles que buscam as generalizações causais nas "ervas daninhas históricas", ou, pior, na interpretação literária. Em segundo lugar, como veremos, o relato de Tucídides é em grande parte psicológico, de modo algum está ligado a uma casualidade eficiente. O tormento está nos detalhes textuais, na forma como Tucídides desenvolve sua argumentação sobre o poder, medo e necessidade através dos episódios de desdobramento dos eventos do primeiro livro. Sua declaração sobre as "causas" da guerra é um sinal de estrada, não um destino.


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